sábado, 15 de março de 2008

Quem é o culpado?

Eu sempre fui de andar muito e gosto de mudar de caminhos, porque assim vou conhecendo outros lugares e vendo gente nova.Hoje fui à casa de uma amiga e na volta resolvi pegar um outro caminho, que passava por dentro de uma favela de Londrina, que há algum tempo atrás estava em guerra com uma outra favela perto de casa, confesso que achei interessante e um pouco pavoroso.As ruas eram largas e com muitas árvores na calçada, assim como em toda a cidade. Mas o que me impressionava mesmo eram as casas, a maioria de madeira com tintura desbotada, nos quintais muito lixo em meio ao matagal que quase entrava pela porta da sala de algumas casas. Mal dava para acreditar que alí moram pessoas. Podia se ver em cada casa havia pelo menos três a quatro cachorros magros e vira-latas.Nos muros pichados dizeres de dar medo a qualquer ser humano. Ameaças e nomes de supostos comandantes da comunidade.Pela rua sentados na calçada pode-se encontrar muitas crianças, a maioria negras, com pés descalços e sujos, brincando com pedrinhas, bola... Roupas muitas vezes surradas e pequenas no corpo.A cada cem metros que andava era como se alguém me observasse de longe. Em frente a uma viela estreita e poluída, estavam sentados três jovens negros também, a diferença que bem vestidos, conversando. Tive uma sensação muito estranha como que se cochichassem e falassem de mim, porém continuei meu caminho, olhando sempre em frente, nunca encarava ninguém nos olhos.Ainda com um olhar crítico sobre a favela, pensei na guerra que houvera acontecido há dois anos, entre duas favelas próximas a minha casa, uma era a que eu descrevi a pouco, a Pantanal e a outra se chamava Nossa Senhora da Paz, mais conhecida como favela da Bratac, empresa de fiação de seda que faz fronteira com a favela.Foi um ano muito tenso para nós que morávamos perto e mais ainda para aqueles que trabalhavam na empresa. O medo deixava a incerteza se a cada dia que passava voltariam para casa vivos. A guerra foi intensa, muitos tiros e morte de inocentes.Muitos moradores de bem, mudaram da favela em busca de uma vida melhor e mais segura.A guerra tinha muito a ver com o tráfico de drogas e pelo comando da boca naquela região.Caminhando pela favela Pantanal vi casas vazias quase sem paredes, os vidros estraçalhados, portas arrombadas, muito mato, sujeira e marcas de tiro para todo lado, Imagino ser estes os lugares usados como base e esconderijo para atacar seus oponentes.Comecei então a fazer uma retrospectiva em busca da causa que leva a guerra em tantas periferias do Brasil. Pensei primeiramente em nosso sistema econômico, o capitalismo, que defende o acúmulo de riquezas por uma pequena minoria que detém a maior parte do poder aquisitivo do país, levando ao que damos o nome de má distribuição de renda. E é por isso que temos aquele contraste encontrado na maioria das cidades grandes do Brasil, a riqueza morando tão perto da pobreza, mas, com objetivos e costumes tão longes e diferentes entre si, gerando assim a desigualdade social.A desigualdade em uma sociedade como o Brasil leva ao que chamamos de violência, aqueles que não conseguem atingir o objetivo do capitalismo e não tem oportunidade de uma boa educação em uma boa escola, apelam para o roubo, que sustenta o tráfico de drogas e o eleva a uma das maiores fábricas de dinheiro do Brasil.É difícil olhar para a guerra e ver a paz no futuro. Podemos ver que o problema vai muito além da violência. Há todo um conjunto de caos a ser resolvido.Não adianta simplesmente colocar um batalhão de choque para proteger uma favela, quando o problema é bem maior que tudo isso.Não é justo colocar a culpa apenas nos traficantes, tão pouco apenas nos políticos, quando vemos que é um sistema vicioso de acúmulo de riquezas, onde a educação no país que deveria ser a prioridade de qualquer governo, vive em situação precária de abandono governamental. Quando políticos são acusados de lavagem de dinheiro, traficantes não temem a morte e matam sem nenhuma pena e escrúpulo. A polícia, uma instituição que tem como meta a segurança nacional vive saindo nos noticiários, por PMs que financiam o tráfico e dele querem tirar seu lucro. As cadeias abrigam o triplo de detentos que poderia suportar. A nossa burguesia, classe média-alta critica o sistema, mas não vêem que são escravos do capitalismo e ainda financiam o tráfico.O egoísmo, individualismo, a vingança, o ódio, o medo, a luxuria, sufocam o amor que deveria ser a base de qualquer sociedade.Mas acredito sim que pode haver uma solução para nosso país. É necessário, porém, que cada cidadão brasileiro se sinta protagonista de seu próprio país, e pare de olhar e criticar a realidade, tornando-a motivo de medo. Temos que nos conscientizar que se as coisas ainda estão do jeito que estão por falta de participação do brasileiro na sociedade.

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