sexta-feira, 2 de maio de 2008

Desabafo rápido II

“O Brasil é um país de outro mundo”, dizia o Maestro Tom Jobim. Se na época do Tom as coisas estavam de cabeça para baixo, imagine nos dias hoje.

É o que eu vejo quando eu ligo a TV: traficantes infiltrados como pedreiros na obra do PAC (até recebendo salários), popularidade recorde de um presidente que é tão incompetente quanto todos os outros da República Nova, o Ronaldinho, que costuma namorar só mulher gostosa, agora está dando no couro com travestis (e três ao mesmo tempo!), epidemia de dengue, terremotos, padres voadores... Não dá para não concordar com o Tom.

E para encabeçar toda a palhaçada nacional: Isabella, a menina defenestrada. O que me intriga é que ninguém dá mínima se milhares de pessoas passam fome ou se muitas sofrem com doenças facilmente evitadas com o simples saneamento básico, mas é só uma menina rica ser jogada pela janela que começam os protestos. E não estou falando da fome na África ou qualquer coisa assim. Não é necessário ir tão longe: será que alguém sente dó das criancinhas que almoçam e jantam farinha nas favelas próximas à residência dos Nardoni? A comoção falsa e exagerada da opinião pública decorre da maneira espetaculosa com que este caso foi explorado pela mídia brasileira. No discurso de posse de Gilmar Mendes, o novo ministro apontou um fato importante: a morosidade típica do Poder Judiciário brasileiro não deu as caras no caso Isabella. O crime aconteceu há menos de um mês, e já acharam os culpados. Por que será?

Outro exemplo de comoção pública exagerada provocada pela cobertuta da mídia: o caso de João Hélio, o menino que foi arrastado por um carro até a morte. O fato de um dos assassinos ser menor de idade provocou ira nos brasileiros e muitos pediram e redução da maioridade penal. Desta vez foi o Legislativo que, numa bravata para domar e amansar a falsamente engajada opinião pública, colocou rapidamente em pauta no congresso a modificação da lei da maioridade. O tempo passou, a maioridade penal foi esquecida e ninguém reclama de nada.

É óbvio que esses crimes merecem ampla cobertura da mídia e investigações competentes. Mas, infelizmente, não se pode esquecer que há assuntos de muito maior importância para o país que precisam ser discutidos nos meios de comunicação e que merecem atenção da população, do Judiciário e do Legislativo. O governo de uma nação cuja opinião pública é tão influenciável como uma criancinha se acomoda e não leva a sério reivindicações primordiais para o nosso desenvolvimento.

Chegando, enfim, onde eu quero chegar: quem é que molda e orienta (para não dizer manipula) a opinião pública? Nós, os jornalistas. Os dois casos que eu citei provam que uma população bem instruída por nós tem o poder de exigir o que quiser do governo. Então cabe a nós instruir bem. Sacou o tamanho da responsabilidade?

5 comentários:

FeAugusto disse...

Sensacional, Murilo. De verdade.

Letícia disse...

Responsabilidade e não é pouca!

Murilo, só tenho que elogiar seu desabafo (tão plausível quanto o primeiro) e dizer que sua argumentação foi brilhante nesse momento. Parabéns! Mais um excelente texto!

Tati disse...

Saquei.
Um salve pelo texto, outro pela argumentação e um terceiro pelo "defenestrada".

Desirée disse...

saquei também.
murilo arrasa em desabafos hein, que que é isso!

Um salve pelo texto, outro pela argumentação e um terceiro pelo "defenestrada". [2]

tem futuro o moço delícia hein!

Thaís T. Y. Ferreira disse...

Gostei do desabafo! Mas Delícia, cabe a nós não apenas manipular a opinião pública, como antes disso, não nos deixar manipular. Os jornalistas erram, às vezes, sem intenção, às vezes por irresponsabilidade com assuntos realmente sérios. Cabe a nós muita coisa, mas primeiro, não sermos vendidos (a menos que seja por muuuito dinheiro - BRINCADEIRA), certo? hauehiaehaieaehueaheiahiea
Casos como o da menina defenestrada* merecem cobertura da mídia e são os jornalistas responsáveis pela carga de sensacionalismo atribuído a cada caso, PORÉM, os jornalistas dependem da informação da polícia, das evidências que estão em jogo e das que não são cogitadas também. Jornalistas para instruírem bem, precisam ser bem instruídos.
Adorei o post Brokeback boy! Mais uma vez, de parabéns!